Isabel Santa Clara, Sementes e outras naturezas, Galeria Serpente|2004


Sementes e outras naturezas


Andar pelo mundo com os olhos abertos tem as suas consequências, e esta exposição é uma delas, enquanto resultante de caminhadas por diversos lugares, e memória de encontros, acasos e descobertas.


Tal como nos antigos gabinetes de curiosidades, nascidos do fascínio pela estranheza e variedade das formas naturais, nas sementes recolhidas por Bruno Côrte também se sente a atracção pelo engenho dessas formas, pela imensidade de soluções que encontra a vida para ser guardada.


Numa mistura de naturalia e artificialia, segue-se ao recolher das sementes o acto de incrustar a sua fragilidade na não menos precária protecção de um invólucro feito blocos de parafina, isolando-as e conferindo-lhes a unidade e a regularidade de uma catalogação. Ao incorporar o pigmento na parafina, Bruno Côrte interfere com a translucidez do material trazendo-o mais para o campo da intervenção pictórica. Não de uma pintura no sentido tradicional do termo, mas já em "campo expandido", como uma presença tutelar que preside ao gesto de colorir e de criar ordens e ritmos.


A captação tautológica das peças pela fotografia regista e reforça a tentativa sempre vã, e por isso mesmo sempre incessantemente retomada, de reter a efemeridade das coisas.


Daí me ter lembrado de uma exposição organizada em 1974 por François Mathey, no Musée des Arts Décoratifs em Paris, que por sorte do acaso vi, que reunia as mais díspares escolhas/recolhas de coleccionadores anónimos, e mostrava também Anette Messager, cujo trabalho começava a ser conhecido na qualidade de coleccionadora de colecções. Sobre este evento escreveu Italo Calvino, fascinado sobretudo pela diversidade patente numa colecção de areias de todo o mundo, que qualquer colecção é também um diário, de viagens, de sentimentos de estados de alma, de humores; e que o impulso secreto que leva a coleccionar e reunir uma colecção, ou a manter um diário, parte da necessidade de transformar o curso da nossa própria existência numa série de objectos salvos da dispersão.


Esse mesmo impulso está presente neste confronto de Bruno Côrte com as sementes, trazendo-as, através de um misto de espontânea admiração pelas formas, rigorosa inventariação e pensada exposição, para outro reino, ou seja, para outras naturezas.


Professora na Universidade da Madeira, Centro de Arte e Humanidades, Doutorada em História da Arte

isabelsantaclara@gmail.com