Isabel Santa Clara, Sílvia Nóbrega, Private Underground,  Museu de Arte Contemporânea do Funchal|2003


Private Underground


Isabel Santa Clara(1)

Para fazermos uma breve viagem pelo que tem sido o trabalho de Bruno Côrte começamos por dar conta de uma actividade de recolecção — folhas, flores, sementes, guardadas junto com as ideias, as memórias pessoais e as memórias de quem passou antes dele e olhou do mesmo ângulo, ou para coisas semelhantes. São pequenos tesouros frágeis, que conservam só por algum tempo a forma e a cor que lhes serviram para atrair o olhar, para ser colhidos. E se de início serviam apenas de modelos, depois passam a ser incorporados numa pintura que separa em espaços geometricamente definidos, regulares como os de um agricultor, tanto as manchas e as texturas em que predominam os tons de ocre, vermelho, castanho (as terras), como as sementes e fibras vegetais que foram sendo pacientemente recolhidas. Em pé de igualdade, numa estratégia de ordenação e inventário.


A par dessa pintura, como recuperando sentido etimológico da palavra geometria enquanto agrimensura, encontramos uma série de trabalhos in situ com searas — plantações de trigo, milho, lentilhas, aveia ou tremoço em fase de promessa — de que se destacam a instalação Afinal eram pássaros no Museu de Arte Contemporânea em 2000 (de parceria com Rute Pereira) e Landscape room (Teatro Municipal Baltazar Dias, 2002). Nesta paisagem inventada para um interior a extensão verde é pontuada por estruturas cúbicas em ferro de onde pendem o cor de rosa de um saco de plástico, os verdes das folhas ou a presença de objectos numa organização que obriga de novo a coabitar o natural e o fabricado.


Excepção a estes lugares cultivados onde a presença da cor se afirma sempre com veemência, é a exposição Me and my nature (Casa da Cultura de Santa Cruz, 2002) em que, presa de si próprio e das grelhas com que ordena o mundo, o rosto de Bruno Côrte se repete ao longo da parede, no mesmo rigor suspenso que fixa os troncos secos na sala do lado. Tempo de olhar para dentro, de saber da lenha e do fogo, como no inverno.


Perseguindo lugares de fecundidade, e na sequência de muitas deambulações e encontros com a terra e as pedras que a fotografia ajuda a registar, chegamos agora a este Private underground, passeamos por entre pequenos montes cobertos de erva, recolhemo-nos sob um tecto de flores. Gestos ancestrais cruzam-se nas nossas cabeças com os vestígios recentes deixados por Giuseppe Penone, Alberto Carneiro ou Graça Pereira Coutinho. Cheira a erva molhada, cheira a flores secas, aqui podemos respirar fundo, atentos ao pulsar do coração.


Sílvia Nóbrega(2)

Em jeito de transparência, ele vivia dentro de cada pessoa que tocava. Uns mais próximos do que outros. Alguns nem lhe notavam a presença, fechados no seu feudo, ocupados com a ilusão de si e com a sua imposição ao mundo, medindo tamanhos e sombras. Defendendo distâncias. Porque cada Homem cava à volta de si um fosso feito de distâncias desejadas e indesejadas, previstas e não previstas... E porque esse espaço a quem rouba matéria é, por natureza, um espaço comum – nascido da ausência infinita de fronteiras e da vontade infinita de liberdade -, cada Homem cava um fosso à volta dos outros. Este movimento é tão velho quanto a Humanidade e é tão novo quanto cada momento. Renova-se ao consubstanciar-se cada vontade, cada ânsia, cada certeza, cada medo... Renova-se nas singularidades de cada história de vida, porque as lições do mundo não são suficientes para iluminar cada mente, cada coração.


As lições do mundo dispersam-se como se dispersam as vergonhas que se deseja esquecer... De geração para geração, transitam configurações construídas: transitam montes, transitam fossos... Mas não transitam as lições aprendidas por quem, no silêncio das vergonhas dispersas, entre ansiedades e angústias errantes, edificou esses labirintos. E assim, cada Homem herda, sem saber de quem, uma promessa, uma secreta aspiração de unidade, e caminha pela vida fora guiado por um segredo que nunca lhe contaram: espera e desespera. E a meio desse percurso, vai ampliando os montes que herdou à nascença, vai cobrindo de sombra as vergonhas, as ansiedades, os medos, as grandezas que vê maiores que as suas... Vai compondo o seu mundo de adereços que, no seu significado, lhe dêem a ilusão de viver num planeta repleto. Neste percurso regado de impossíveis, as solidões crescem como frutos de sementes que nunca foram por alguém plantadas. Crescem como urtigas a que as almas cansadas, endurecidas, se habituaram.


E era entre todo este universo plural, feito de configurações e adereços presos a uma temporalidade banal, que habitava ele. Tocando quem se deixava tocar ou quem era surpreendido pela sua transparência. Às vezes, esta sua dimensão não corporal assustava-o. Não sendo finito, embora transparente, ganhava contornos labirínticos, de que ele próprio se perdia. Era em momentos como esse que se apoderava de si uma saudade. E recolhia à floresta.


A floresta era uma cidade. Uma cidade feita de prédios altos e baixos, de jardins escondidos, de calçadas sujas e ruas limpas, de buzinas e vozes, de miséria e opulência, de alegria e tristeza, de fumo e vinho, de fados cantados e vividos, de mercados saloios de peixe e verdura fresca, de gente anónima e caras conhecidas em refúgios nocturnos. Foi aí que ele se plantou um dia. A cidade não era um feudo; era um reino onde cabiam medidas maiores. Em jeito de transparência, nessas viagens, ele tocava ainda mais quem o cercava, mas dessas vezes escolhia-os a dedo, como quem partilha vida. De cada vez que assim fazia, unia ilhas por pontes invisíveis, pontes tão fortes como a morte – passagens. E destas viagens trazia vontades ainda maiores.


Tudo vinha-lhe da floresta. Vinha-lhe dos sons do vento em restolhada nas folhas secas. E dos raios de luz derramados em buracos verticais. Vinha-lhe portanto das vozes em zurrapa e dos silêncios musicados. Dos brilhos intensos e da poderosa escuridão. Do fumo, das ruas, das árvores. Coisas da cidade. Coisas de uma Natureza diluída, eterna, que reconhecia na cidade. Porque, de cada vez que sonhava, transportava imagens reais, matizadas de outras que na sua mente se plantavam. Assim foi construindo a sua cidade. Assim se fez a ela e lhe bebeu da seiva - segredos que a floresta reserva para cada amante.


Desta cúmplice vida cruzada, acompanhado de quem a companhia quis, ele plantou vida, longe dos feudos grandes e pequenos, adoptado pela mãe-cidade. E passou a ser maior. Maior o bastante para sobrevoar o mundo e rir-se da sua pequenez.


(1)Professora na Universidade da Madeira, Centro de Arte e Humanidades, Doutorada em História da Arte

isabelsantaclara@gmail.com


(2) Formação em Sociologia, Universidade Nova de Lisboa

silvia_nobrega@yahoo.com